Professores criticam cortes e pedem diálogo, enquanto gestão defende medidas para evitar colapso; futuro da instituição segue em discussão Professores da EEP (Escola de Engenharia de Piracicaba) pedem maior abertura ao diálogo e à participação dos docentes no atual plano de ação posto em prática para conter o que a secretária municipal de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio, Thaís Fornícola, classifica como “sangramento” nas finanças da Fumep (Fundação Municipal de Ensino de Piracicaba). Junto com o Cotip (Colégio Técnico Industrial de Piracicaba), o Centro de Pós-Graduação e o Centro de Educação Profissional de Piracicaba, a EEP é uma das quatro unidades de ensino que compõem a Fumep, ente que integra a administração indireta do município e possui orçamento próprio —a subvenção municipal foi revogada em 2007—, com previsão de receitas de R$ 24,074 milhões em 2026, segundo a Lei Orçamentária Anual em vigor. Thaís está interinamente, desde abril, como diretora-executiva da fundação, em substituição a Luis Chorilli Neto, que se afastou por três meses, sem remuneração, para a disputa de um cargo honorífico no Crea (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia). A secretária foi a responsável pela maior parte das respostas do Executivo na audiência pública sobre o futuro da Fumep realizada na tarde desta sexta-feira (8) na Câmara. A discussão foi convocada pela vereadora Rai de Almeida (PT) no requerimento 396/2026 e trouxe ao plenário da Casa parlamentares, secretários municipais e docentes do quadro da Fumep. O debate foi motivado pelas mudanças recentes implementadas na fundação, entre as quais a demissão de sete professores de longa trajetória na instituição e a não-abertura de novas turmas nos cursos de graduação em engenharia de produção e ciências contábeis. “A Fumep tem um papel de extrema relevância para a sociedade e, em razão de alguns problemas que chegaram ao nosso conhecimento, por dever de ofício chamamos essa audiência pública. Não temos aqui o papel de ‘caça às bruxas’, mas temos de levantar os problemas que existem, apurá-los e buscar saná-los para ter nossas instituições funcionando nos termos para os quais foram criadas”, afirmou Rai de Almeida, no início dos trabalhos. Thaís agradeceu a possibilidade de expor as ações que a atual gestão da Fumep tem implementado “para levar a fundação ao nível e à estabilidade que ela merece”. “É uma instituição de quase 60 anos que vem sofrendo com muitas dificuldades financeiras. Estou feliz em ter essa oportunidade de mostrar isso e ouvir sugestões que possam fazer a fundação ser cada vez mais forte e longeva. Acredito, sim, que essa é uma solução que precisa ser construída a muitas mãos”, afirmou. A Fumep conta hoje com mais de 210 funcionários, incluindo terceirizados, e um total de 2.270 alunos, dos quais 1.207 estão matriculados na EEP, 233 no Cotip, 761 no Centro de Educação Profissional de Piracicaba e 69 no Centro de Pós-Graduação. Com 79 professores, dos quais 97,5% possuem mestrado e doutorado, a EEP mantém estável, nos últimos quatro ciclos, a nota 3 no Índice Geral de Cursos, que vai de 1 a 5 e é o principal indicador de qualidade das instituições de ensino superior no Brasil, calculado anualmente pelo Inep/Ministério da Educação. “A fundação continua sendo reconhecida por sua qualidade e referência no ensino e, como evidência disso, o regulador externo continua aprovando e nos reconhecendo pela qualidade”, pontuou a diretora-executiva interina. No entanto, reportou Thaís, a EEP perdeu 925 de seus alunos entre 2016 e 2024, uma redução de 43%. “A queda está alinhada com a transformação estrutural que toda instituição de ensino superior presencial brasileira sofre”, disse a secretária, num cenário em que o EaD (ensino a distância) cresce, enquanto o presencial encolhe. “Não se trata de uma crise de gestão [da EEP], mas de uma transformação estrutural do mercado de educação superior”, observou, acrescentando que cada aluno que sai significa mensalidades a menos, sem que a folha de pagamentos tenha acompanhado a queda das receitas ao longo dos anos. SEM MEDIDAS ADOTADAS, FUMEP CRUZARIA LIMITE OPERACIONAL AINDA EM 2026, DIZ SECRETÁRIA A Fumep teve seu último saldo financeiro positivo em 2016, quando alcançou superávit de R$ 416 mil —os nove anos desde então geraram um déficit acumulado de R$ 17 milhões. A folha de pagamentos chegou a representar 100,2% da receita em 2020, alcançou em 87% em 2025 e fechou o primeiro trimestre deste ano em 68,1%, menor porcentagem desde os 70% de 2016, segundo os dados apresentados pela diretora-executiva interina na audiência pública da Câmara. “A Fumep [antes] estava pagando os salários com suas reservas, tirando dinheiro do banco, do investimento financeiro, não do que arrecadava, tornando uma situação insustentável financeiramente. Neste último trimestre, de janeiro a março de 2026, pela primeira vez nós baixamos de 70% esse índice”, comparou. “Olhando o caixa acumulado, que são as aplicações financeiras, como consequência perdemos 72% do caixa, ao consumi-lo, saindo de R$ 23,9 milhões em 2016 para R$ 6,4 milhões em 2025, sendo que a reserva mínima recomendada para uma instituição de ensino é de, no mínimo, seis meses de despesas operacionais, [no caso da Fumep] cerca de R$ 11 milhões. Seguimos longe da saúde financeira recomendada, com de três a quatro meses de segurança”, disse Thaís. Segundo a secretária, sem as medidas adotadas em 2025, cálculos indicaram que a fundação teria o esgotamento total de suas reservas daqui três anos. “A Fumep teria cruzado o limite operacional ainda em 2026 e chegado ao seu último dia de operação em 13 de março de 2029. Isso deixaria 2.270 alunos sem recursos e 210 funcionários sem emprego e, provavelmente, sem as verbas rescisórias previstas”, afirmou, ao explicar que tal projeção é baseada na taxa média de queda das reservas observada nos últimos dez anos, de R$ 2 milhões anuais. Thaís apontou que a adoção de um conjunto de medidas em 2025 —por ela denominadas como reorganização do quadro docente, reorganização acadêmica, revisão de contratos e adequação da infraestrutura— terão impacto recorrente a partir de 2026 de R$ 2,39 milhões economizados ao ano. “As decisões foram tomadas para garantir