
Fim da escala 6×1 dos trabalhadores: Câmara de Limeira promove diálogo com a sociedade sobre o tema
Representantes do poder público, universidade, sindicatos e classe patronal contribuíram com o debate Com o objetivo de discutir o impacto da jornada de trabalho de 44 horas semanais no Brasil e a proposta que tramita no Congresso Nacional para extinguir a escala 6×1, a Câmara Municipal de Limeira pautou o tema em audiência pública nesta sexta-feira, 28 de novembro. O encontro reuniu representantes do poder público, universidade, sindicatos e classe patronal para contextualizar a realidade de Limeira. A discussão foi promovida e conduzida pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara, composta pela vereadora Isabelly Carvalho (PT), presidente; por Calinhos do Grotta (PL), vice-presidente; Bruna Magalhães (PRTB), secretária. A demanda foi pautada pela União Sindical dos Trabalhadores de Limeira (USTL). Compuseram a mesa expositora o secretário Municipal de Valorização e Preparação para o Trabalho, Sidney Pascotto, Sandra Francisca Bezerra Gemma, livre docente em Ergonomia, Saúde e Trabalho pela FCA/Unicamp, Antonio Eduardo Marques e. Renato Maluf, representando o Sindicato Patronal Das Indústrias da Construção de Limeira (Sincaf), o supervisor técnico do Escritório Regional do Dieese em São Paulo, Fernando Lima. A íntegra das apresentações e das interações com o público foi transmitida e gravada nos canais de comunicação da Câmara. O vídeo na íntegra pode ser acessado neste link. Debate local Artur Bueno Júnior, presidente da USTL, foi o primeiro a contribuir com o debate, falou sobre o papel da Câmara de Limeira abrir o diálogo sobre a jornada de trabalho. Segundo ele, o tema que não é debatido em profundidade no Brasil desde a Constituição de 1988, quando houve a última redução, de 48 para 44 horas. “A Comissão de Direitos Humanos da Câmara dá um passo importante para a classe trabalhadora não só do munícipio de Limeira mas no nosso País. O objetivo aqui é ouvir todos os lados sobre esse tema, pois sabemos da dificuldade dos trabalhadores, sabemos da dificuldade do setor empresarial. Entendo que esse tema é fundamental para ser debatido em uma mesa de negociação, não somente em Brasília, que é o foro, mas também reverberar nas as bases que são as câmaras municiais e assembleias legislativas”, considerou o líder sindical. Ele abriu o debate mencionando a dificuldade de contratação de jovens que não aceitam a jornada 6×1 e o impacto negativo nas famílias, especialmente para a mulher trabalhadora, que utiliza o domingo, folga, para afazeres domésticos. Carga tributária e desafios A classe patronal, representada no debate pelo Sincaf, não se posicionou contrário à redução, contudo alertou para os desafios econômicos da medida enfretados pelos empresários, citando a elevada carga tributária brasileira e o aumento de custos com folha de pagamento. Sobre o impacto nos custos, Renato Maluf, descreveu que a mão de obra possui um custo alto para o empregador. “Por exemplo, um trabalhador que ganha R$ 10 por hora, custa para empresa de R$ 24 a R$ 28, dependendo do regime tributário da contabilidade é feita pela empresa. Então, se houver a redução da jornada, os custos vão encarecer em mais 10% sobre a mão de obra empregada, seja construção, civil, supermercados. Esse aumento será repassado ao consumidor final no preço das mercadorias. No final, quem vai pagar a conta é a população”, avaliou. Já Antonio Marques apontou a dificuldade de setores com baixa lucratividade, como restaurantes, cafeterias e bares, em absorver esse custo adicional. Empresário da construção civil há 40 anos, ele contextualizou que também já esteve no ramo de alimentação. “Para alguns grandes grupos não vai fazer diferença a alteração, mas vejo que os empresários que têm lucratividade pequena terão dificuldade de se ajustarem a esse modelo proposto, porque são 10% a mais no custo para arcar”. Dentro dessa perspectiva dos desafios, o secretário Sidney Pascotto considerou que poder público precisa oferecer contrapartidas, como a desoneração fiscal, a redução da carga tributária, para que o custo da medida não recaia integralmente sobre o consumidor. “Toda discussão é importante, porque precisamos nos adequar e dar aos trabalhadores uma condição melhor. Como cristãos, nós cremos que a família é base de tudo e gostaríamos que o trabalhador tenha mais tempo para ficar com a família. Nenhum patrão quer ver o funcionário infeliz, agora o poder público precisa entrar com algumas medidas, para evitar que o custo recaia na folha de pagamento e sobre os consumidores”, reforçou. Impactos na saúde A audiência pública contou com embasamento técnico com dados sobre saúde e fatores psicossociais. A professora da Unicamp, Sandra Gemma, apresentou a perspectiva da relação entre jornada de 44 horas semanais e a saúde mental. “O trabalho nunca é neutro, ou é promotor de saúde ou pode ser algo que degrada a saúde, que nos acidenta, traz adoecimento tanto físico como mental e infelizmente temos visto crescer o número de suicídios no trabalho, daí a necessidade de pensarmos uma forma de organização melhor, que possa contemplar a produção social, mas que também possa contemplar a dignidade humana”, comentou. A pesquisadora selecionou alguns levantamentos da SmartLab, Organização Mundial da Saúde (OMS ) e da Organização Internacional do Tralho (OIT) para contextualizar a linha de debate. Alguns desses estudos indicam que houve um aumento de 134% nos casos de incapacidade temporária no trabalho ligados à questão da saúde mental, entre os anos de 2022 e 2024). As causas se relacionam aos fatores psicossociais, contexto em que a jornada de trabalho exaustiva se insere. “Mas também há fatores biológicos: uma jornada extensiva não permite que o trabalhado mantenha uma alimentação adequada, o repouso, não permite as vivencia as questões familiares e outras atividades sociais. Apesar da estatística alarmante, o cenário é ainda mais grave, porque existe um problema de subnotificação”, apontou. Ainda em relação às consequências da 6×1, ela mencionou que a jornada leva os trabalhadores ao burnout (síndrome de esgotamento profissional), estresse crônico, distúrbios do sono, dificuldade em conciliar a vida pessoal e profissional. A professora explicou, por fim, que a responsabilidade da saúde mental no trabalho deve ser compartilhada entre os trabalhadores os empregadores e o Estado, assegurando jornadas e ambientes laborais mais saudáveis e, para além de saudáveis, éticos













