Entre o hobby que atrai cada vez mais jovens e mulheres e a realidade de comunidades ribeirinhas, a pesca revela duas faces de um mesmo setor em expansão
A pesca, seja ela esportiva, comercial ou de subsistência, deixou de ser apenas uma atividade de lazer ou uma linha isolada da economia para se tornar um dos setores mais estratégicos da cadeia de alimentos e turismo do planeta. Os números mais recentes confirmam essa relevância, e mostram que o Brasil vive um momento particular de expansão, tanto na pesca esportiva quanto na dependência de milhões de pessoas em relação ao pescado como fonte de renda e alimento.
O relatório O Estado Mundial da Pesca e Aquicultura (SOFIA), divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em junho de 2026, traz um retrato atualizado da atividade global. O comércio internacional de produtos aquáticos movimentou US$184 bilhões, um valor recorde que já rivaliza com o comércio mundial de carnes terrestres.
Esse valor revela uma cadeia produtiva que sustenta vidas. O setor de pesca e aquicultura garante, direta e indiretamente, a subsistência de cerca de 600 milhões de pessoas em todo o mundo. Cerca de 89% de tudo o que é produzido em animais aquáticos vai diretamente para o consumo humano, ou seja, a pesca não é apenas negócio, é segurança alimentar.
O relatório também mostra uma mudança estrutural na forma como o pescado chega à mesa: em 2024, a aquicultura (criação de peixes) já representou 53% da produção mundial, superando pela primeira vez a pesca extrativa, a captura em rios, lagos e mares, que respondeu por 47%, com cerca de 92 milhões de toneladas, das quais 80 milhões vieram da pesca marinha.
No Brasil, o cenário é de crescimento acelerado, especialmente na pesca esportiva. Estimativas apontam que mais de 30 milhões de brasileiros já se interessam ou praticam ativamente a pesca esportiva, um público que vai muito além da pescaria em si e movimenta uma cadeia inteira de serviços: guias de pesca, transporte náutico, hotelaria e turismo regional, com destaque para o Pantanal, a Amazônia e as bacias do Centro-Oeste.
Esse movimento é fortemente sentido por quem fabrica os equipamentos usados por pescadores todos os dias. É o caso da Gold Fish, fábrica brasileira com mais de duas décadas de história no segmento de acessórios de pesca, que começou produzindo um único item, o suporte de vara, e hoje reúne em uma só empresa linhas que normalmente estão espalhadas entre fábricas distintas: passaguás, boias (de arremesso, profissionais e de rede), samburás, bolsas e acessórios em geral.
Segundo o proprietário da empresa, o mercado de acessórios de pesca de duas décadas atrás era, paradoxalmente, mais amplo em pontos de venda física, havia mais lojas abertas e menos concorrência direta, do que o cenário atual. A virada de chave veio com duas aquisições: uma fábrica de passaguás, recebida de um fornecedor há cinco anos, que hoje já responde por 40% do faturamento da empresa, e, mais recentemente, uma fábrica de boias, que ampliou ainda mais o catálogo e o quadro de funcionários.
Um dos sinais mais claros de que a pesca esportiva brasileira está em expansão, na visão da empresa, é a mudança no perfil de quem pratica: nos últimos anos, cresceu de forma expressiva a presença de jovens, crianças e mulheres na atividade, um público que amplia a base tradicional de pescadores adultos e demonstra que o hobby está se popularizando entre novos perfis de consumidores.
Os dados globais da FAO lembram que para uma fatia expressiva das 600 milhões de pessoas que dependem da pesca no mundo, sendo assim uma fonte primária de alimento e renda. É essa dualidade que torna o setor tão relevante para políticas públicas: de um lado, uma indústria de equipamentos e turismo em franca expansão, de outro, comunidades inteiras que dependem da pesca para sua subsistência.
O crescimento do interesse pela pesca também trouxe para dentro das próprias fábricas uma preocupação crescente com o impacto ambiental. A Gold Fish, por exemplo, diz ter desenvolvido uma linha de passaguás e viveiros pensada para não machucar os peixes durante o manuseio, um indicativo de que, à medida que a atividade se populariza, cresce também a cobrança por práticas que preservem os estoques pesqueiros e o bem-estar animal, evitando que o boom da pesca esportiva se transforme em pressão adicional sobre um recurso que também é, para milhões de brasileiros, questão de sobrevivência.
Com a retomada das estatísticas oficiais pelo MPA, o setor pesqueiro brasileiro tende a ganhar, nos próximos anos, um retrato mais preciso de sua própria dimensão, tanto na ponta esportiva, que já mobiliza dezenas de milhões de praticantes e uma indústria de equipamentos em expansão, quanto na ponta da subsistência, ainda pouco mapeada, mas essencial para comunidades inteiras ao longo dos rios e da costa brasileira. Entender essas duas faces da pesca, negócio e sobrevivência, será fundamental para equilibrar crescimento econômico e sustentabilidade nos próximos anos.













