Criação de curso ligado à FOP poderá se dar pela encampação da Fumep pela Unicamp
A possibilidade de encampação da Fumep (Fundação Municipal de Ensino de Piracicaba) pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) poderá viabilizar a criação de um curso público de Medicina na cidade, ligado à FOP (Faculdade de Odontologia de Piracicaba). A celebração de um plano nesse sentido foi sinalizada positivamente tanto pela Prefeitura de Piracicaba quanto pela universidade, em audiência pública promovida pela Câmara, nesta quarta-feira (4), em atendimento ao requerimento 875/2026, de autoria do vereador Josef Borges (PP).
Ao presidir a audiência, o parlamentar também sugeriu a criação de um grupo de trabalho formado por vereadores, funcionários da Fumep, professores e alunos da EEP (Escola de Engenharia de Piracicaba) para acompanhar a elaboração do plano de incorporação da instituição municipal à Unicamp. “É unanimidade essa intenção de que Piracicaba receba um curso público de Medicina”, ressaltou Josef Borges. “E a Câmara estará empenhada para que essa proposta se transforme em realidade”.
A audiência pública contou com a apresentação da secretária municipal de Desenvolvimento Econômico, Luciane Iracet Nuglisch Leães, que desenhou um cenário favorável no município, que é sede da região metropolitana, para receber um curso de Medicina. Ela lembrou a existência do Hospital Regional de Piracicaba, que atende a 26 municípios e que já atua com médicos residentes. E ainda as universidades públicas situadas na cidade, como a Esalq, a Fumep e a própria FOP (Faculdade de Odontologia de Piracicaba)/Unicamp.
Ressaltou os benefícios que a cidade pode ter com a implantação do curso de Medicina, como a geração de empregos qualificados, geração de renda, criação de um pólo de saúde e de pesquisas. “O terreno não está vazio. A faculdade de Medicina entra em um plano já construído”, defendeu. “São sete instituições públicas de ensino superior na cidade e a própria Unicamp reconheceu que existe a lacuna do curso de Medicina. A universidade quer crescer e nós queremos que seja aqui”.
A secretária elencou as atividades já realizadas em prol da viabilização do curso desde 2023, com reuniões entre representantes do município, do Estado e a reitoria da Unicamp. Um dos pontos citados foi a criação, pelo Governo do Estado, em junho deste ano, dos distritos de inovação, dos quais o de Piracicaba foi considerado como o que possui a segunda cadeia produtiva na área da saúde mais madura no Estado. “Já temos a cadeia produtiva e não temos a escola de Medicina, falta a escola pública”, colocou. “A cidade tem hospital, cadeia e ecossistema de inovação. A universidade é a peça que está faltando”.
Inovação
Citou também o que Piracicaba tem feito para desenvolver o ecossistema de inovação, através da articulação do PIN (Piracicaba Innovation), que tem como uma das seis vocações a abordagem da saúde única, que traz a ideia de que a saúde das pessoas, animais, plantas e ambiente está ligada e precisa ser tratada em conjunto.
Lembrou que a Fumep está ligada ao PIN e que é uma instituição criada em 1967 e que hoje possui mais de dois mil alunos, com ampla infraestrutura de ensino, laboratórios e pesquisa. Para a secretária, uma parceria entre Unicamp e Fumep poderia somar muito, através do aproveitamento do espaço já existente.
O diretor-executivo de administração da Unicamp, Flávio Henrique Baggio Aguiar, disse que a implantação do curso de Medicina em Piracicaba é um desejo da universidade, através de uma extensão da FOP. Ele acredita que a medida depende de um processo de autarquização da área da saúde da Unicamp. Significa que o Governo do Estado deverá assumir os custos de atendimentos na área da saúde atualmente bancados pela universidade, que chegam a R$ 1,2 bilhão por ano. A ideia é que, através desse processo, sejam separados os custos de atendimento em saúde da área acadêmica da Unicamp. Com isso, sobrarão recursos para que a universidade amplie cursos e um deles poderá ser o de Medicina em Piracicaba. A criação do curso também depende da aprovação do Conselho Universitário da Unicamp.
Lembrou ainda que há necessidade de disposição da Prefeitura, aprovação pela Câmara Municipal de Piracicaba e pela Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) de um modelo que permita essa parceria. “Poderia catalisar um curso de Medicina dentro da Fumep e potencializar demais cursos, caso haja decisão do prefeito e vereadores”, afirmou. “Depende de um acordo entre Fumep, Prefeitura, Unicamp e Governo do Estado. A Unicamp tem a maior vontade que isso possa acontecer, mas é uma decisão do município”. O diretor salientou que a encampação da Fumep pela Unicamp poderia resultar na criação de outros cursos na área da saúde.
Ele explicou que o processo de encampação se daria através da elaboração de um plano, negociado entre Prefeitura e Unicamp, que definiria questões como a situação dos funcionários e docentes da Fumep. Citou modelos já executados, que consistiram na permanência dos servidores na instituição até a aposentadoria e o enquadramento dos cargos em extinção até a substituição completa por funcionários concursados pela própria Unicamp. Mas ressaltou que qualquer plano nesse sentido dependeria de aprovação da Câmara e da Alesp. “Se ocorrer a autarquização, a Unicamp vai precisar criar cursos novos como contrapartida ao Governo do Estado. Se tiver o espaço da Fumep, poderão ser criados outros cursos em Piracicaba, mas tudo depende de aprovação do Conselho Universitário”, salientou.
Pressão da sociedade
O diretor colocou ainda que a pressão da sociedade é um catalisador para que a incorporação aconteça, como ocorreu com o encaminhamento de moções de apoio aprovadas pela Câmara de Piracicaba e de outros municípios da região em prol da criação do curso. Avaliou que a Prefeitura deve se antecipar e apresentar uma proposta para a reitoria da Unicamp para que sejam iniciadas as negociações de um plano.
Nesse sentido, a secretária Luciane Leães destacou que as discussões deverão sair do papel após a assinatura de um protocolo de intenções entre o município e a universidade. Questionada sobre prazos para que o processo possa ser concretizado, disse acreditar que a fase de aprovação das legislações necessárias possa ser realizada em meados do próximo ano. “Estamos fazendo o possível e o impossível para acelerar esse processo”, garantiu.
Durante a audiência pública, o vereador Josef Borges apresentou três abaixo-assinados encaminhados por funcionários, professores e alunos da EEP, favoráveis à incorporação da Fumep à Unicamp. O debate também contou com a participação de membros da comunidade acadêmica da fundação municipal. Eles destacaram o momento de dificuldade pelo qual passa a Fumep, além da preocupação dos funcionários com o futuro e do desejo de que o processo de incorporação à Unicamp seja agilizado.
“Ficou claro o forte interesse para que esse processo ocorra”, afirmou o diretor acadêmico da EEP, Marcelo Zanbon. “Não é fácil, mas há uma oportunidade importante. A encampação é oportuna porque é uma instituição pública se incorporando a outra e entendemos que é fortemente benéfico”.
Também estiveram presentes na audiência pública os vereadores Fábio Silva (Republicanos), Sílvia Morales (PV), do Mandato Coletivo A Cidade é Sua e Rai de Almeida (PT). Eles contribuíram para o debate através de questionamentos sobre outros cursos que poderiam ser agregados na cidade a partir da encampação da Fumep, da necessidade de avanço nas negociações, além de pontuarem a preocupação com a situação dos funcionários nesse processo. Rai de Almeida ainda comentou sobre o vazio na formação de outras áreas na cidade a partir do fechamento dos cursos da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba) e avaliou que a Fumep poderia ocupar esse espaço deixado na cidade.
Foto: Câmara de Piracicaba













