Influenciador Hytalo Santos já era investigado desde 2024 e foi preso preventivamente por tentar destruir provas O influenciador digital Hytalo Santos teve a prisão preventiva decretada na sexta-feira (15), no âmbito de investigação sobre possível exploração de crianças e adolescentes nas redes sociais. Conhecido por reunir adolescentes em casa e compartilhar imagens em formato semelhante a um reality show, ele chegou a ultrapassar 17 milhões de seguidores no Instagram. O Ministério Público da Paraíba investigava o caso desde 2024, mas um vídeo de outro influenciador, Felca, ampliou a repercussão nacional nos últimos dias. O conteúdo publicado por Felca, no qual apresenta denúncias contra Hytalo, ultrapassa 40 milhões de visualizações no YouTube. Com a monetização desativada, Felca afirma ter decidido abordar o assunto por acreditar que outros não teriam coragem, assumindo as consequências. Dias depois, disse ter recebido ameaças de processos. Na sexta-feira, elogiou a atuação dos investigadores. Hytalo se declara inocente e afirma colaborar com as autoridades. A prisão ocorreu por suspeita de tentativa de destruição de provas. O embate entre os produtores de conteúdo, agora caso de polícia, coincide com o crescimento do debate sobre regulamentação das redes sociais. Nesta semana, ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) receberam 26 influenciadores para discutir democracia, papel das instituições e comunicação online. Na ocasião, o ministro Alexandre de Moraes reforçou que as leis devem valer também no ambiente virtual. “O que não pode no mundo real, não pode no mundo virtual. Se você não pode fazer algo pessoalmente, também não pode fazê-lo pela internet. É simples assim”, afirmou, criticando a ausência de responsabilização das redes e a resistência das big techs em cumprir legislações nacionais. Dificuldade em remover conteúdos nocivos Cristina Cordeiro, diretora-adjunta do Instituto Liberta, avalia que o caso evidencia a dificuldade em remover conteúdos nocivos, mesmo após diversas denúncias. “O Instituto Liberta alertou para esse conteúdo várias vezes. São vídeos de acesso facilitado, com apelo sexual e que, como falamos, causam danos para o desenvolvimento infantil. Sem a regulamentação, o processo de suspensão de contas e retirada dos vídeos é muito difícil”, afirma. Ela agradece a Felca por utilizar sua visibilidade para tratar do tema. “O vídeo que ele produziu não só foi muito assistido, mas gerou debates e movimentou o Ministério Público, a classe política e as famílias. Só assim vamos tirar da normalização esse tipo de conteúdo entregue para crianças e adolescentes”, ressalta. Após a divulgação do vídeo, a SaferNet registrou aumento de 114% nas denúncias de exploração sexual infantil online. Entre 6 de agosto, data da postagem, e a meia-noite de terça-feira (12), foram recebidas 1.651 denúncias únicas. No mesmo período de 2024, haviam sido 770. Para o professor Humberto Miranda, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, influenciadores como Felca falarem sobre esse tema é de extrema importância. “O nível de responsabilidade de um influenciador é grande, porque as crianças e os adolescentes escutam de forma muito intensa o que eles dizem. Por isso, eles têm que levar a sério o título de influencier. Essa influência pode ser positiva ou negativa”, destaca. Ele destaca que Felca conseguiu com um vídeo de 50 minutos o que os pesquisadores e defensores do direito da criança não conseguem com muita luta. “Nos dias de hoje, as pautas sensíveis como essas precisam ser levantadas por pessoas que tem esse poder de comunicação. Eu espero que esse fator Felca seja algo que fique, tenha desdobramentos”, afirma. Cuidado com a exposição A repercussão do caso acendeu alerta sobre a exposição de crianças e adolescentes nas redes. A psicóloga e psicanalista Laís Flores, da associação civil D³e, defende que quanto menos exposição, melhor. Ela observa que, muitas vezes, os pais não pretendem lucrar com a imagem dos filhos, mas o alcance da internet dificulta prever consequências. “Os pais, muitas vezes, não têm interesse de monetizar ou vender a imagem dos filhos, mas só mostrar para o mundo o que eles fizeram de tão maravilhoso. Mas a gente perde a dimensão da dimensão da internet, quem está assistindo”, pontua. Lembra ainda que crianças não têm capacidade para consentir com esse tipo de exposição, complicando a situação. Cristina Cordeiro, do Instituto Liberta, reforça que é impossível mensurar de imediato as consequências da exposição precoce. E repete: lugar de criança é brincando, não trabalhando ou tendo sua exposição explorada por seus responsáveis. “O principal ponto a ser questionado é o excesso de exposição a que crianças são submetidas sem que se tenha condições de avaliar os prejuízos futuros”, afirma. “Crianças e adolescentes sem supervisão na internet são presas fáceis para abusadores, que se aproximam de forma amigável e sedutora e acabam conseguindo imagens e informações que servirão para chantagens e ameaças”, completa. Maria Mello, do Instituto Alana, lembra que crianças têm direito à expressão artística, mas alerta que isso não se confunde com exploração. “Não é possível admitir que se utilize essa liberdade de expressão artística como um cheque em branco para expô-las às situações que vão ferir os seus direitos”, afirma. Segundo ela, muitas são utilizadas nas redes para gerar lucros a empresas e até para as próprias plataformas. “Então, em muitos canais das redes sociais essa população que é hipervulnerável, na nossa população, vem sendo exposto em nome da busca pelo engajamento.” Proteger crianças e adolescentes: dever de todos Laís destaca que proteger crianças é dever da sociedade, e qualquer cidadão pode denunciar casos suspeitos, como fez Felca, sem precisar de grande número de seguidores. “A gente já tem uma rede de proteção que é grande, complexa e antiga”, afirma. O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), com 35 anos, oferece instrumentos como os conselhos tutelares e canais de denúncia, entre eles o Disque 100. No entanto, Laís avalia que a legislação sobre internet ainda precisa avançar. “A internet ainda é uma terra sem lei, tem pouca legislação, os donos precisam ser responsabilizados, precisa ser regulamentado”, defende. Discussão nos Três Poderes Desde a repercussão do vídeo de Felca, pelo menos 30 projetos surgiram na Câmara dos Deputados para prevenir e combater exposição indevida, adultização, exploração sexual e outros crimes contra crianças e adolescentes