Tecnologia utiliza extratos de grãos de café defeituosos e da película do amendoim para retardar a absorção do açúcar; testes preliminares apontaram redução do índice glicêmico.
Pesquisadores ligados à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram uma tecnologia para produzir açúcar com menor índice glicêmico a partir de extratos obtidos de resíduos agroindustriais do café e do amendoim. A inovação utiliza compostos antioxidantes incorporados aos cristais de sacarose para retardar a absorção do açúcar pelo organismo, sem alterar o sabor.
O projeto foi desenvolvido no âmbito da Plataforma Biotecnológica Integrada de Ingredientes Saudáveis (PBIS), que reúne instituições de pesquisa e empresas do setor alimentício. A tecnologia já teve o pedido de patente depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
O índice glicêmico indica a velocidade com que os carboidratos de um alimento elevam a glicose no sangue. Alimentos com índice mais elevado podem provocar aumentos mais rápidos da glicemia, enquanto opções com menor índice tendem a produzir uma elevação mais gradual.
Como funciona o novo açúcar?
A tecnologia utiliza extratos fenólicos da película vermelha que envolve o amendoim e de grãos de café verde considerados defeituosos pela indústria. Esses materiais contêm compostos fenólicos com propriedades antioxidantes que, segundo os pesquisadores, podem interferir na velocidade de processamento dos carboidratos pelo organismo.
Para incorporar os extratos à sacarose, a equipe utilizou uma técnica chamada cocristalização. O método permite inserir os compostos nos cristais de açúcar, modificando sua estrutura e possibilitando a produção de um ingrediente sólido com potencial de aplicação industrial.
De acordo com os pesquisadores, adaptações no processo permitiram aumentar em 7,5 vezes a capacidade de incorporação dos extratos, preservando as propriedades fenólicas dos compostos.
A proposta é oferecer o ingrediente às indústrias alimentícias como alternativa ao açúcar convencional em alimentos processados, sem modificar significativamente as características das formulações.
Testes apontaram redução do índice glicêmico
Para avaliar os efeitos da tecnologia, os pesquisadores realizaram um ensaio clínico com 25 voluntários ao longo de seis dias. Os participantes consumiram diferentes preparações, incluindo glicose pura, sacarose cocristalizada e versões com extratos de café, amendoim ou a combinação dos dois ingredientes.
A glicemia foi monitorada durante duas horas após o consumo.
Os resultados preliminares indicaram que a combinação dos extratos de café e amendoim reduziu significativamente o índice glicêmico da sacarose, que passou da classificação média para a baixa.
Apesar dos resultados iniciais, os pesquisadores ressaltam que ainda são necessários estudos adicionais para esclarecer outros efeitos do produto. O teor calórico, por exemplo, não foi determinado e, inicialmente, a expectativa é que seja semelhante ao do açúcar convencional.
A equipe também pretende investigar possíveis impactos do ingrediente sobre a microbiota intestinal, conjunto de microrganismos que habitam o intestino humano.
Tecnologia busca aproveitar resíduos industriais
Além do potencial de aplicação na indústria de alimentos, o projeto propõe agregar valor a materiais que normalmente são descartados ou rejeitados durante o processamento do café e do amendoim.
A pesquisa faz parte da PBIS, criada em 2021 com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A plataforma reúne o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), a Unicamp, a Universidade de São Paulo (USP), empresas do setor alimentício e a Fundação Shunji Nishimura de Tecnologia.
A iniciativa busca desenvolver ingredientes e processos industriais a partir de matérias-primas nacionais, com foco em inovação e sustentabilidade.
Quando o produto poderá chegar ao mercado?
O novo açúcar está em uma etapa de maturidade tecnológica que permite avançar para avaliações e aplicações industriais. A estratégia da plataforma é disponibilizar a tecnologia por meio de licenciamento, oferecendo às empresas o conhecimento técnico e os resultados científicos obtidos durante o desenvolvimento.
Ainda não há confirmação de quando o produto chegará às prateleiras. Para isso, será necessário avançar nas etapas industriais e cumprir as exigências regulatórias aplicáveis aos alimentos e às eventuais alegações de benefícios à saúde.
Embora os resultados iniciais sejam promissores, o ingrediente não deve ser considerado automaticamente um açúcar de baixo valor calórico ou um produto capaz de prevenir ou tratar doenças. Essas possibilidades dependem de evidências científicas adicionais.
A expectativa dos pesquisadores é que a tecnologia contribua para ampliar as opções de ingredientes alimentícios e incentivar o aproveitamento de resíduos da cadeia agroindustrial brasileira. (Renan Isaltino)
Fonte e Foto: Agência SP













