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Do endividamento à reinvenção: como brasileiros estão empreendendo para virar o jogo financeiro

Com 81,7 milhões de nomes negativados e recorde de aberturas de MEI, país vê crescer um mercado de “recuperação financeira” que mistura educação, empreendedorismo e redes de indicação

O Brasil soma 81,7 milhões de nomes negativados e vive um recorde histórico de aberturas de MEI. Nesse cenário, cresce um tipo de negócio que promete unir educação financeira, tecnologia e vendas por indicação. É o caso da Refin Multinível, empresa que se apresenta como um “ecossistema de recuperação financeira”.

A Refin reúne sob uma mesma marca uma conta digital de pagamentos (OK Pag), um serviço de telefonia móvel (OK Chip), uma plataforma imobiliária (Rede Super Imóveis), uma ferramenta de anúncios e live commerce (AchaTudoAqui) e uma rede social voltada a compartilhamento de conteúdo (Conselho do Dia). A empresa também oferece cursos próprios sobre vendas, liderança e finanças pessoais.

O modelo de negócio, no entanto, segue a lógica clássica do marketing multinível: os ganhos dependem não só da venda dos produtos e serviços, mas principalmente da capacidade de recrutar novos participantes, que por sua vez recrutam outros. A própria empresa formaliza essa lógica em um roteiro interno batizado de “Método Refin de Crescimento”, que orienta os participantes a aprender sobre o ecossistema, divulgá-lo e “duplicar” a rede, um plano de 90 dias dividido em três fases: aprender, aplicar e duplicar.

Uma das ações centrais dessa estratégia é o “Desafio dos 100 Convites”, em que os participantes são incentivados a fazer cem convites em sete dias para atrair novos contatos e parceiros à rede.

Empresas desse tipo costumam se posicionar como alternativa para quem perdeu o emprego formal ou busca renda extra. É um discurso que ganha força justamente em períodos de alto endividamento e informalidade, como o atual. A promessa de “recuperação financeira” por meio de capacitação e empreendedorismo é atraente, mas esconde um ponto que merece atenção: em modelos multinível, a maior parte da renda tende a se concentrar em quem entrou primeiro na rede, enquanto a maioria dos participantes recém-chegados têm dificuldade para recuperar o que investiu em produtos, treinamentos ou taxas de adesão. É um padrão já documentado por reguladores e pesquisadores em outros esquemas semelhantes no Brasil e no exterior.

A Refin evita o termo “marketing multinível” e prefere descrever sua proposta como um ecossistema que combina ferramentas digitais, produtos financeiros e formação. Segundo o material da empresa, o sucesso não é apresentado como automático, mas como consequência de “dedicação, aprendizado e aplicação do método”, formulação comum nesse tipo de negócio, que transfere para o participante a responsabilidade por eventuais resultados insatisfatórios.

Em um cenário marcado por endividamento, busca por renda extra e mudanças nas relações de trabalho, a experiência da Refin mostra como novas estruturas de empreendedorismo estão tentando ocupar esse espaço. O sucesso, como a própria empresa enfatiza em seu material, não é tratado como resultado automático, mas como consequência da dedicação, do aprendizado e da aplicação do método.

 

 

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