Ane Carolina sentiu um nódulo no autoexame, mesmo com exames em dia; ela conta como fé, família e rede de apoio a sustentam no tratamento e defende que a campanha também é sobre acolher quem está doente Foi durante o autoexame, em dezembro de 2024, que a publicitária e empresária de Campinas (SP) Ane Carolina Agostinho (foto de capa), hoje com 39 anos, fundadora da SeuQG, sentiu um nódulo na mama. Em abril daquele ano, os exames preventivos de rotina não haviam identificado nenhum nódulo. A ultrassonografia, feita dois dias depois de sentir o nódulo, trouxe o resultado BI-RADS 3, classificação que indica um achado provavelmente benigno e, em geral, com acompanhamento a cada seis meses. Ane, porém, decidiu procurar um mastologista. Em fevereiro de 2025, na consulta, foi ela quem pediu a biópsia. Sem indicação inicial, o médico achou prudente fazer o exame, já que o nódulo havia crescido rápido. O resultado surpreendeu: um nódulo com todas as características de benigno era, na verdade, um carcinoma triplo negativo invasivo. Segundo Ane, é um tipo que costuma atingir mulheres jovens, na faixa dos 30 anos, e é mais agressivo, um dos tipos com mais chances de metástase se não for descoberto cedo. Histórias como a dela estão no centro do Outubro Rosa, campanha internacional realizada todos os anos para alertar sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama. O movimento surgiu nos Estados Unidos e ganhou força a partir da década de 1990, com o laço rosa como símbolo. No Brasil, a primeira ação ocorreu em 2002, no Obelisco do Ibirapuera, em São Paulo, e a campanha foi oficializada em 2018 pela Lei nº 13.733. De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o tumor de mama é o mais incidente entre as mulheres, com cerca de 30% dos diagnósticos (excluindo o câncer de pele não melanoma). Para o triênio 2026-2028, são esperados 78.610 novos casos por ano no Brasil. Apesar da alta incidência, as chances de cura podem chegar a 95% quando o tumor é descoberto logo no início, com menos de 2 centímetros, segundo a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM). Ane estava abaixo da idade em que a mamografia costuma ser recomendada para rastreamento. O exame é o principal para esse fim e identifica tumores muito pequenos, antes mesmo de serem perceptíveis ao toque. Já o autoexame, lembram especialistas, não substitui a mamografia, mas ajuda a mulher a conhecer o próprio corpo e perceber alterações, como aconteceu com Ane. Desde setembro de 2025, o Ministério da Saúde recomenda o acesso à mamografia pelo SUS também para mulheres de 40 a 49 anos, sob demanda e em decisão conjunta com o profissional de saúde. O rastreamento ativo, com exame a cada dois anos, passou a incluir mulheres até os 74 anos (antes, até 69). A SBM, por sua vez, recomenda a mamografia anual a partir dos 40 anos. Mulheres com histórico familiar ou alto risco devem começar mais cedo, com orientação médica. Sobre o momento do diagnóstico, Ane conta: “Receber a notícia de que você vai passar por um tratamento agressivo aos 37 anos não é fácil de engolir”. Casada desde 2023, ela lembra que estava na idade de formar família e construir a carreira, e que saber que sonhos e planos seriam paralisados foi desafiador. Ao mesmo tempo, veio a confiança: Ane se apegou à fé, convicta de que havia “um propósito muito maior” por trás do processo. A quimioterapia foi mais fácil do que ela imaginava, mas Ane faz questão de reforçar que cada experiência é única e que é importante não se comparar. Enquanto, durante as sessões, conseguia manter a vida próxima do normal, a cirurgia a deixou prostrada e foi algo muito delicado. Ela passou por mastectomia com reconstrução e por outros dois procedimentos: um para retirar uma necrose na mama e outro para o explante da prótese, após rejeição. “Lidar não só com a cicatriz, mas com a amputação da mama, me olhar no espelho e não me reconhecer foi, com certeza, um dos momentos mais desafiadores do meu tratamento”, relata. Para ela, a paciente oncológica enfrenta “batalhas que ninguém vê”, como alterações de humor, depressão e medo de novos diagnósticos. “O tratamento não altera só o nosso corpo. Ele também desafia a nossa mente”, diz, e recomenda buscar apoio emocional durante o tratamento. Um dos pilares dessa jornada foi o marido. Ela conta que ele esteve em todas as sessões de quimioterapia, escreveu uma carta em cada uma delas e participou de todas as consultas médicas, abrindo mão da própria agenda para cuidar dela. Amigas que compartilham da mesma fé também a acompanharam em oração, assim como clientes que “deram a mão” e caminharam com ela, enquanto outros foram embora por temer que o diagnóstico comprometesse sua capacidade profissional. “Isso é Outubro Rosa: é apoiar a paciente oncológica, não apenas fazer um post”, afirma. Atualmente, Ane segue em tratamento, com capecitabina, uma quimioterapia oral, e aguarda os resultados dos próximos exames para, enfim, entrar em remissão. Nesse processo, ela diz priorizar a saúde, as pessoas que ama e, só depois, a vida profissional, ordem que resume assim: “Deus, saúde, família e trabalho, nunca inverta essa ordem”. A uma mulher que acabou de receber o diagnóstico, ela deixa a mensagem de que o câncer de mama “não é um ponto final”, mas uma parte da história. Aconselha cercar-se de pessoas que tragam boas notícias e estejam de fato presentes, já que, nessas horas, a qualidade importa mais que a quantidade. Também recomenda respeitar o próprio corpo e evitar comparações, inclusive com o que se vê nas redes sociais. “Câncer de mama não é performance. É se manter viva”, conclui. Foto: Arquivo pessoal